SBEM-RJ na revista Veja Rio

O paradoxo carioca


por Sofia Cerqueira

Símbolo do bem-estar, da vida saudável e dos corpos esbeltos e bronzeados, o Rio de Janeiro é também a capital brasileira com a maior proporção de obesos em sua população


O culto à boa forma, os corpos esculturais, a alimentação saudável e a malhação ao ar livre sempre estiveram associados à imagem do Rio de Janeiro. Não à toa, viramos símbolo de beleza e bem-estar mundo afora, uma posição reforçada no imaginário universal pelos acordes e letra de Garota de Ipanema, o hino sentimental de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Tais concepções, porém, estão a anos-luz da dura e crua realidade. Goste-se ou não, a cidade do Rio é obesa, cheia de celulites, gorda como nenhuma outra metrópole brasileira. E quem diz isso não é um estrangeiro qualquer, que toma turistas checas rechonchudas por matronas nativas, como fez o jornalista americano Larry Rohter há seis anos, em uma reportagem sobre obesidade no jornal The New York Times. A sentença, nesse caso, foi proferida pelo Ministério da Saúde, em um abrangente levantamento realizado nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Na pesquisa, conduzida pela área de combate a doenças crônicas do órgão e divulgada recentemente, constatou-se que 18% dos cariocas adultos — quase um em cada cinco — se espremem naquela categoria em que as gordurinhas extras já deixaram de ser sinal de displicência para se transformar em problema de saúde. Só para efeito de comparação, a cidade de São Paulo, com seus restaurantes e um arraigado hábito de sair para comer fora, tem cerca de 13% da população na mesma condição. Salvador, dos acarajés e cocadas, tem pouco mais de 15%. Belo Horizonte, apesar dos tutus e pães de queijo, cravou apenas 11%. Ou seja: estamos mais flácidos e barrigudos.


Antes de rasgar a revista e dizer que tudo não passa de um engano, que esse questionário foi distribuído em Madureira ou no Irajá, vale a pena fazer um passeio pela orla carioca. De forma empírica, a mesma realidade constatada pelo Ministério da Saúde pode ser vista nos 40 quilômetros de praias da cidade. É óbvio que, se um forasteiro chegar ao Posto 9 ou à faixa em frente ao Country Club, em Ipanema, à Praia do Pepê, na Barra, vai se sentir como se estivesse em meio a deuses e deusas de outro planeta. De fato, a profusão de barrigas tanquinho, braços torneados e bumbuns perfeitos impressiona qualquer mortal. No entanto, caso decida se aventurar alguns metros além desses territórios, o observador vai deparar com uma frequência, digamos, bem mais robusta de pessoas fora de forma — e a quantidade de roliços vem crescendo velozmente. Há quatro anos, o índice de adultos obesos no Rio, registrado no mesmo levantamento, com a mesma metodologia, era de 12,5%. Na ocasião, a cidade ocupava apenas a 12ª posição na lista. Hoje, figuramos no topo do ranking, lá no alto, com todas as pelancas à mostra. “A praia é a melhor prova disso. Se você olhar por aí, vai ver que muita gente tem barriga”, diz a médica Vivian Ellinger, presidente regional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, no Rio. “E não adianta negar o óbvio.”

Mas o que explica isso? Por que os cariocas, de repente, passaram de tamanho M para GG? Bom, existem fatores gerais e outros mais específicos  para justificar essa transformação. Para começar, não estamos sozinhos nessa. O mundo inteiro está engordando. A combinação de estresse, refeições irregulares, sedentarismo e grande disponibilidade de alimentos industrializados criou  aquilo que os especialistas chamam de ambiente obesogênico. Nos Estados Unidos, 25% da população é considerada obesa. Aqui como lá, as pessoas se deslocam preferencialmente de automóvel e costumam descontar suas frustrações na comida. No Brasil, há ainda outra variável. Atualmente, estamos em meio a um fenômeno chamado transição nutricional, em que a camada de menor poder aquisitivo passa a ser mais bem remunerada e, com isso, consome mais alimentos gordurosos. O Rio, evidentemente, também está incluído nessa equação, em que o acúmulo de riqueza é proporcional ao de gordura. Mas não são apenas os favelados e moradores do subúrbio que estão ganhando uns quilinhos a mais. “Como todo grande centro urbano, reunimos condições extremamente favoráveis para que as pessoas ganhem peso”, diz Amélio de Godoy Matos, membro da Associação Brasileira para Estudos da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).


No caso carioca, algumas particularidades potencializam esse fenômeno. Por aqui, os índices de criminalidade dos últimos anos ajudaram, por exemplo, a aumentar o sedentarismo. “Já tive pacientes que deixaram de pedalar depois que tiveram sua bicicleta roubada”, diz Vivian Ellinger. Aliás, a história de que somos todos esportistas não é exatamente verdadeira. Segundo o levantamento do Ministério da Saúde, apenas 16,1% da população adulta faz atividade física regularmente, um índice próximo ao da média nacional e inferior ao de outras capitais. Ou seja: a imensa maioria dos moradores da cidade passa longe de uma esteira ergométrica, pista de corrida ou raia de natação — o que, ironicamente, inclui até donos de academia. O empresário Alexandre Accioly, 47 anos, sócio da A!Body Tech, a maior rede do Brasil, é um dos que só saem da lista dos sedentários quando o excesso de peso incomoda. Foi o que aconteceu no início do ano, quando bateu a marca dos 115 quilos. Com quase 1,90 metro de altura, entrou na categoria que os especialistas definem como obesidade nível 1. “Eu não tinha tempo para nada, viajava muito e participava de cinco almoços de negócios por semana”, recorda. Sócio de restaurantes como o Gero, em Ipanema, Accioly comia dois pratos em cada refeição. Em fevereiro, resolveu mudar de atitude e voltar ao peso de dois dígitos em três meses. Deu certo, e atualmente ostenta 96 quilos. “É preciso muita disciplina e determinação”, atesta.


Mesmo sem a quantidade e a variedade de restaurantes de São Paulo, as tentações à mesa por aqui não são poucas. Uma característica local, nada desprezível para compreender por que estamos mais gordinhos, é a cultura de botequim, com fartura de bebida alcoólica e de petiscos engordativos. De acordo com estimativas de VEJA RIO, existem cerca 15 000 bares na cidade, vários deles estrategicamente posicionados no caminho do trabalho para casa. “Essa é mais uma peça que ajuda a explicar os altos índices de excesso de peso”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho, chefe do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares, núcleo ligado à Secretaria de Saúde. Quem toma chope (a tulipa de 300 ml tem 180 calorias) raramente fica no primeiro copo. Somados os acompanhamentos clássicos da baixa gastronomia, como bolinhos, torresmo, embutidos, linguiças e afins, uma inocente passagem pelo boteco pode render uma bomba calórica de 1 000, às vezes 2 000 calorias. A combinação de bom papo regado a chope e uns beliscos é irresistível para o vice-governador Luiz Fernando de Souza, o Pezão. Morador do Leblon, com aquele tamanhão todo, não é difícil vê-lo nos botecos do bairro nos fins de semana. Com 1,90 metro de altura e 133 quilos — 23 acima do que considera ideal —, ele vive o desafio permanente de controlar o apetite. “Toda vez que a calça começa a apertar, inicio uma dieta”, conta. Há dez dias, começou uma nova. Rígidos, os regimes alimentares costumam ser intercalados por três temporadas ao ano em um spa. “Já incorporei essa rotina: emagreço e depois engordo tudo de novo. Daí volto a emagrecer, para engordar mais uma vez.”


Se houvesse rosto para definir o Rio rechonchudo, seria o da cantora e atriz Preta Gil, 1,60 metro e 80 quilos. Flagrada há dois anos por um paparazzo tomando um caldo em Ipanema, ela tornou-se alvo de uma cruel brincadeira no programa Pânico na TV. Enquanto as fotos eram exibidas, o apresentador a comparava a uma baleia encalhada. “Fiquei muito ofendida. Foi uma tremenda falta de respeito”, diz Preta, 35 anos, que processou o programa por danos morais e ganhou na Justiça o direito de receber uma indenização de 150.000 reais. A moça já tentou de tudo para emagrecer — de remédios a lipoaspiração, passando pelas dietas mais esdrúxulas. Em paz com seu próprio corpo, bonita e desejada, ela no momento desistiu da luta com a balança e se limita a controlar seus índices de colesterol e triglicerídeos. Nem todo mundo, claro, consegue se olhar no espelho com a mesma postura zen. Fanático por combinações hipercalóricas por próprio dever de ofício, o chef de cozinha Roland Villard, do restaurante Le Pré-Catelan, chegou a pesar 105 quilos, um número alto para seu 1,75 metro. Resolveu radicalizar nos exercícios físicos para contrabalançar a vida de pecadilhos que levava no trabalho. Além de adotar um rígido programa de treinamento de corrida, incorporou medidas folclóricas ao seu dia a dia, como trocar a colher de sopa que usava para provar suas preparações por uma de café. Perdeu 25 quilos, mas acabou recuperando 10 deles. “Não posso deixar de acompanhar o que está sendo preparado”, justifica-se o mestre-cuca de 48 anos. “Agora fechei a boca de novo e voltei a correr.”


A boa notícia para os que desejam emagrecer é que nem tudo está perdido. Romper o círculo vicioso da gordura é difícil, mas, se existe um lugar onde isso é possível, esse lugar chama-se Rio de Janeiro. A cidade oferece uma infinidade de estímulos para a vida saudável. Não faltam por aqui restaurantes com foco na alimentação de baixas calorias. Poucas capitais brasileiras contam com uma rede tão vasta de ciclovias e áreas para fazer esporte ao ar livre. A cada fim de semana e feriados, a orla se transforma em uma imensa área de lazer. A agenda de eventos esportivos também é vibrante. Em breve, a cidade abrigará dois deles. Ainda neste mês, a capital será o ponto de partida para o primeiro Tour do Rio, uma corrida internacional de bicicletas que percorrerá 780 quilômetros de estradas no estado, em cinco dias de prova. Em agosto, será a vez de a meia maratona do Rio reunir cerca de 17 000 corredores, entre amadores e profissionais. Isso sem falar que vamos respirar esporte pelo menos nos próximos seis anos, com a realização de duas competições de dimensões globais, como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Para quem precisa de incentivos na guerra contra os quilos extras, aí estão vários deles. Mexa-se. Fique saudável. E vamos ver se na próxima pesquisa estaremos mais magros do que os elegantes paulistas, ok?

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